
Porta-voz do Departamento de Estado rejeitou documento de Mauro Vieira que alerta para o risco de uso da força militar norte-americana em território brasileiro
O governo dos Estados Unidos classificou como “absurda”, nesta terça-feira (7), a avaliação do Itamaraty sobre o risco de uma ação militar norte-americana no Brasil. A declaração, feita por um porta-voz do Departamento de Estado em nota à imprensa, rebateu um documento assinado pelo chanceler Mauro Vieira e enviado à Câmara dos Deputados no início deste mês, no qual o ministro alertava para as possíveis consequências da decisão unilateral dos EUA de enquadrar o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas, incluindo o risco de uso da força militar em território brasileiro.
EUA reagem a alerta do Itamaraty
“Esse comentário sobre risco de uma ação militar é um absurdo. Os Estados Unidos estão adotando medidas decisivas, com base em suas próprias prerrogativas soberanas, para combater narcoterroristas”, afirmou o porta-voz do Departamento de Estado. A nota acrescentou que “essas facções brasileiras agora operam nos Estados Unidos, e defenderemos nosso povo delas.”
O governo norte-americano foi além da negação e inseriu uma carga política na resposta:
“Alegações vagas de intervenção costumam servir de pretexto para ajudar e favorecer alguns dos grupos mais violentos do mundo.”
A formulação, ao sugerir que o próprio alerta do Itamaraty poderia beneficiar as facções criminosas, inverte a lógica da preocupação brasileira e desqualifica a avaliação de um ministério de Estado soberano como se fosse cumplicidade com o crime organizado. Trata-se de uma pressão retórica, não de um argumento jurídico.
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O alerta de Mauro Vieira ao Congresso
O documento que provocou a reação norte-americana foi enviado pelo chanceler Mauro Vieira à Câmara dos Deputados em resposta ao Requerimento de Informação nº 1.012/2026, apresentado pelo deputado Evair de Melo (Republicanos-ES), que pedia esclarecimentos sobre a classificação das facções pelo governo Trump. O texto, datado de 1º de julho de 2026 e cuja íntegra foi obtida pela Fórum, é uma manifestação oficial do Ministério das Relações Exteriores com peso institucional inequívoco.
“A referida classificação unilateral poderia ser invocada como justificativa para ações extraterritoriais sobre instituições brasileiras, em particular no âmbito financeiro, migratório e penal. Há, ademais, o risco de uso da força militar dos EUA contra o território nacional.”
Vieira destacou ainda que o governo brasileiro não foi formalmente comunicado pelos EUA sobre a intenção de classificar as facções antes do anúncio feito pelo secretário de Estado Marco Rubio. O chanceler se posicionou contra a medida, argumentando que ela “não trará benefícios concretos para a cooperação internacional” e que o enquadramento como organização criminosa transnacional já permitiria a cooperação necessária no combate ao crime organizado, sem os riscos que a designação terrorista acarreta.
Sanções e o enquadramento terrorista
A origem da tensão está em uma decisão tomada em junho, quando o Departamento de Estado dos EUA classificou o PCC e o CV como organizações terroristas estrangeiras, contrariando posição expressa do governo federal brasileiro. A medida abre caminho para ações unilaterais e extraterritoriais com base na legislação antiterrorismo norte-americana, que prevê ampla discricionariedade na aplicação de restrições financeiras, migratórias e penais contra pessoas e entidades com qualquer grau de vinculação aos grupos designados.
Os efeitos concretos já começaram. Na semana anterior ao pronunciamento dos EUA, o governo Trump anunciou a primeira rodada de sanções econômicas decorrentes da classificação: dois brasileiros, três empresas sediadas no Brasil e uma empresa portuguesa foram atingidos por restrições por suposta ligação com o PCC. As medidas incluem o bloqueio imediato de bens nos Estados Unidos e a proibição de qualquer transação envolvendo os alvos por parte de cidadãos, empresas e instituições financeiras norte-americanas. O governo Trump alegou que o PCC utiliza o sistema financeiro norte-americano para lavar dinheiro do tráfico de drogas.
Senado cobra explicações do chanceler
A repercussão no Congresso brasileiro foi imediata. Nesta terça-feira (7), a Comissão de Relações Exteriores do Senado aprovou, de forma simbólica, um convite para que o ministro Mauro Vieira preste esclarecimentos sobre o alerta contido no documento enviado à Câmara. O requerimento foi apresentado pelo senador Hamilton Mourão (Republicanos-RS), que justificou a iniciativa afirmando ser “imperioso compreender os fundamentos geopolíticos e de Inteligência que basearam o alerta do Itamaraty, as providências diplomáticas coordenadas pelo governo brasileiro e as estratégias em curso para salvaguardar a autonomia jurisdicional e a soberania do Estado brasileiro frente a medidas unilaterais externas.”
O presidente da comissão, Nelsinho Trad (PSD-MS), afirmou que qualquer medida que envolva atuação militar em território brasileiro deve “respeitar a ordem jurídica e os mecanismos de cooperação”, acrescentando que “o combate ao crime organizado exige firmeza, mas também coordenação entre Estados soberanos.” Vieira não é obrigado a comparecer, e ainda não há data definida para a audiência. O Itamaraty, por sua vez, não respondeu quando questionado sobre qual foi o embasamento utilizado pelo chanceler para avaliar a possibilidade de uma intervenção militar norte-americana no país.
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